EDITORIAL: Rayuela se renova

"Uma ponte não se sustenta de um só lado, jamais Wright ou Le Corbusier iriam fazer uma ponte sustentada em um só lado."
(Julio Cortázar. Rayuela)

Rayuela, a publicação virtual da Nova Rede CEREDA se renova.

CEREDA é o centro de investigação sobre a Criança no Discurso Analítico (Centre d'Etude et de Recherche sur l'Enfant dans le Discours Analytique) fundado em 1982 em Paris, e animado por Jacques-Alain Miller, Judith Miller, Eric Laurent, Rosine Lefort e Robert Lefort.

Trata-se de um espaço de investigação de orientação lacaniana, vinculado ao Instituto do Campo Freudiano. Não se trata, portanto, de um grupo analítico, não é também uma associação, não é um significante que se presta a qualquer uso. O princípio no qual se funda é aquele que diz que a psicanálise é uma só, não há "especificidade da psicanálise com crianças".

As investigações buscam trazer à luz, a cada vez com mais rigor as coordenadas da "criança sintoma", assim como as dos sintomas da criança; discernir as distinções da estrutura que exigem as formas do mal-estar na infância e submeter a cada uma delas à prova de uma clínica atenta às transformações da cultura e às invenções da criança.

Existem também os pequenos detalhes que, modestos ou preciosos justificam um trabalho para liberar a criança do lugar de objeto para o qual ele sempre pode deslizar, em meio às contingências de seu encontro com o mundo.

O CEREDA constituiu a "Nova Rede CEREDA" que tem caráter internacional e reúne grupos de diferentes países que se inscrevem sob este significante e no marco da formação proporcionada pelo Campo Freudiano e suas Escolas.

Os grupos da Nova Rede CEREDA se vinculam através de suas diagonais francófona hispano-hablante e americana, que se encarregam de estender o discurso analítico em intensão sobre a criança, nos espaços geográficos habitados pela língua francesa, espanhola e portuguesa.

Rayuela se criou com o objetivo de estabelecer a eficácia de um trabalho em rede na Diagonal Americana.

Depois de um longo período onde Marcela Errecondo sustentou nossa publicação virtual uma nova época nos exige uma modalidade distinta.

A necessidade de um maior intercâmbio entre os grupos da Diagonal Americana, com os grupos europeus articulados no Instituto da Criança - Universidade Jacques Lacan e com outras instâncias do campo freudiano dedicadas à infância, faz com que hoje contemos com uma equipe de redação maior.

Isto facilitará uma maior fluidez da informação e dos textos entre todos os participantes da Nova Rede CEREDA.

Rayuela nasceu com um nome agalmático. Diz do jogo infantil que também é jogado pelos adultos ainda que não o saibam, no que se põe em jogo o corpo, seu movimento, seu equilíbrio, sua astúcia como também o espaço, o número, as letras, uma trajetória e um ponto de chegada.

Sobrevoa também a invenção literária de Julio Cortázar. Cada um inventa sua própria "rayuela" com as cifras e as letras de seu desejo e do seu gozo. Por outro lado, não há nada mais entediante que jogar o "jogo da amarelinha" sozinho. Ainda que seja um outro da fantasia, ele deverá se fazer presente ali. E se for de carne e osso e se falar, sua chegada ao "céu" está assegurada. Certamente que a dimensão do amor está presente quando se joga o "jogo da amarelinha". O amor como ponte no laço com outro.

Rayuela também evoca um topos variado, como o de nossa comunidade americana na qual os grupos da Nova Rede CEREDA estão ligados à NEL, À EBP e à EOL, inseridos numa diversidade de culturas e línguas.

Sabemos que uma ponte não se sustenta de um só lado. Não somente pelo que dizem os arquitetos, nem tão pouco pelo que diz Júlio Cortázar. Sabemos por nossa prática, pela experiência da transferência, na qual nos engajamos como parceiros da criança.

Rayuela também tem vocação de ponte entre os parceiros da transferência de trabalho na Nova Rede CEREDA.

Bem-vindos e boa leitura,

Gustavo Stiglitz

Tradução: Inês Seabra Abreu Rocha e Revisão: Cristina Vidigal