NOTAS PARA UMA PESQUISA SOBRE A FAMÍLIA: DOS COMPLEXOS AOS PAIS
_Gastón Cottino

O presente trabalho, parte de uma pesquisa em curso, procura lançar as bases para indagações sobre os diferentes modos da família contemporânea. Conhecer os distintos modelos, representações e funções que ao longo da obra de Lacan se pode localizar a este respeito, nessa ocasião, conduzirá a extrair as consequências de um modo de concepção da família apoiada menos no pai, atendendo à formulação inicial a respeito do declínio de sua imagem. Para isso, usarei especialmente o texto "os complexos familiares na formação do indivíduo", de 1938.

Inicio o apanhado com a seguinte frase extraída de Lacan:

"O grupo reduzido que constitui a família moderna não se parece, de fato, quando examinado, uma simplificação, mas sim uma contração da instituição familiar. Mostra uma estrutura profundamente complexa, na qual mais de um ponto se esclarece muito melhor, mediante as instituições positivamente conhecidas da família antiga".[1] (Grifo nosso)

Como entender essa contração? A que se refere Lacan, quais são, as formas dessa "família antiga"? O que é essa "complexidade" estrutural? Sem esgotar o que essa perguntas implicam, começo por algumas notas desse mesmo escrito.

A família da qual Lacan faz alusão é a família moderna e se configura em torno do matrimônio, dando lugar, segundo Durkheim, à família conjugal. Logo, já em consonância com os modelos de família que apresenta a antropologia e a sociologia, Lacan começa sua construção dessa "contração" através de "complexos". Os quais, ao modo das estruturas, se fundem em relações sociais que definem uma realidade incluindo o objeto e uma relação com o real de tipo dialético.

Do complexo do desmame, que "representa a forma primordial da imagem materna"[2], compreende-se que "funda os sentimentos mais arcaicos e estáveis que unem o indivíduo à família"[3]. Esse "sentimento familiar" apoia-se em uma imagem que implica, hegelianamente, "a assimilação perfeita da totalidade do ser" junto a outras nostalgias "de uma utopia social de uma tutela totalitária"[4].

"O complexo de intrusão", a respeito dos irmãos comporta os distintos avatares do imaginário, que incluem o estádio do espelho, a rivalidade, agressividade e os ciúmes junto ao trauma pelo nascimento de um irmão.

Logo, quando se refere ao Complexo de Édipo, afirma que o resultado psíquico daquele é a imagem do pai, responsável do recalque e da sublimação. Dá o nome a isso de família paternalista.

Aqui vem a conhecida ideia do "declínio social da imago paterna"[5]. O qual ocasiona os efeitos psicológicos de uma crise, entre os quais está a possibilidade de um líder totalitário junto, ao que Freud chama de "a grande neurose contemporânea".

A partir de aqui podemos perguntar o que acontece com a família em seu aspecto sexuado, já que ao final do texto Lacan escreve algo que, como não é incomum em sua obra, tem toda sua atualidade:

"As origens da nossa cultura estão demasiadamente ligadas ao que chamaríamos de bom grado a aventura da família paternalista como para que se imponha, em todas aquelas formas cujo desenvolvimento psíquico tenha sido enriquecido por ela, um predomínio do masculino. (...) esta preferência tem um avesso: se trata, fundamentalmente, da ocultação do princípio feminino sob o ideal masculino"[6].

São prova disso "protesto viril", por parte da menina, e a virgindade" como princípio do ideal masculino, que "mistifica as antinomias" da mulher. Por tanto, é em função dessas, e presumivelmente de outras, antinomias adjetivadas como sociais, como se deve entender que o "impasse imaginário da polarização sexual"[7].

É possível ser lido, não somente esta outra porta de entrada da psicanálise lacaniana que é o declínio da imago paterna, mas também uma colocação em questão das identificações e posições em relação à sexuação, que se assumem na família, a partir do predomínio masculino nela? O que é esse princípio do feminino que fica sob o ideal masculino? É certo seguro que o faça surgir paternidades não patriarcais? A mistificação das antinomias, para qual o feminino se abre, é só uma assunto da virgindade, não há fenômenos contemporâneos nessa linha? E, finalmente, como entender esse "impasse imaginário da polarização sexual"?

Então, o argumento que decorre a partir daqui seria: como pensar o princípio feminino ou o ideal masculino, e a imagem do pai e da mãe, em jogo nos complexos familiares, já que na terceira década do século XXI, onde o pai e os princípios (binarismo ou polarização sexual), se encontram fortemente questionados.

É por isso que considero que a família e suas mutações oferecem um bom campo de pesquisa acerca os fenômenos do gozo de época e, além disso, a possibilidade de considerar certos aspectos da prática ligadas ao público e ao direito. Retomarei esse assunto mais adiante.

Passo por algumas ideias de Friedrich Engels, para aprofundar essa indagação (a partir daquela ideia de Lacan da constrição que leva à família conjugal).

A primeira refere-se à seleção natural na exclusão de parentes consanguíneos para o laço conjugal: "Por consequência, a evolução da família na história primitiva consiste em estreitar constantemente o círculo no qual reina a comunidade conjugal entre os dois sexos, e que em sua origem abrangeu a tribo inteira. A exclusão progressiva, primeiro dos parentes próximos, depois dos parentes mais distantes, e logo dos que são simples parentes por aliança, tornam, por fim, impossível, na prática, toda espécie de matrimônio por grupos; em última análise não fica nada mais além do casal provisoriamente unido por um vínculo que todavia é frágil"[8].

Esse vínculo representa a passagem da filiação feminina e o direito materno, que dá lugar à família patriarcal onde cobra sentido no vocábulo Famulus, que quer dizer escravo doméstico, em referência àqueles que trabalhavam com o gado para aquele homem, cuja herança passava para seus filhos, varões.

No entanto, uma mudança foi necessária nesse vínculo frágil que era a monogamia, e, é a família romana que o permite: "a supremacia masculina (adquiriu) formas mais doces e deixou para as mulheres uma posição muito mais considerada e mais livre (pelo menos na sua exterioridade) (...). Graças a isso foi possível separar-se da monogamia (...) o progresso moral maior que devemos a ele: o amor sexual moderno, desconhecido anteriormente"[9].

Temos então que, na família conjugal, monogâmica, a mencionada proibição do incesto e amor sexual.

A partir desse amor sexual fluirão rios de tinta, mas enfatizo que desde o início, isso implica a questão, não só do amor e o sexual, senão algo, que já está presente em Lévi-Strauss e seus discípulos, é que o vínculo de aliança implica a diferença masculino-feminino. Quais consequências têm isso para a família, quais os termos identificatórios, mas, acima de tudo, quais as maneiras de gozar? Quer dizer, como se entrelaçam o feminino-masculino com as imagos e mãe e pai?

Em relação à barreira do incesto podemos acrescentar que cada cultura imagina o que fica proibido, não só a partir disto, mas também, tomando como referência o que fica permitido para outra cultura. É possível ler um exemplo disso nos rituais e festas que Juan José Saer descreve em El entenado, algo como um gozo sem nagativizar, um puro excesso; mas um excesso sobre o parâmetro que se tem em outra cultura, no caso desse romance, na cultura ocidental, "civilizada", dos conquistadores espanhóis.

Não posso continuar a partir desse ponto. Meu interesse foi apenas trazer algumas linhas de pesquisa em torno da família desde o pai e seu declínio, vendo quais outros campos e conceitos abrem a partir daí. Em princípio, buscando obter o máximo de um texto, do qual podemos agora concluir, com Oscar Masotta, que se desenvolve sobre uma "ideia psicanalítica de base: a inerência do sujeito à família – para além do relativismo das culturas -, que constitui sempre seu acesso às profundezas do real"[10].

Uma dessas linhas poderia ser a que vai por volta de 1969, à "Notas sobre a criança", onde a função de resíduo que mantém e sustenta (ao longo das linhas dessa "contração") corresponde não a qualquer família, mas a família conjugal. E esta transmissão, não mais necessariamente filiação, traz uma constituição subjetiva mediante um desejo não anônimo[11].

Para além da hipótese desse trabalho, quero fazer uma breve menção às possibilidades de eficácia terapêutica e de investigação, que implica uma clínica entre vários, interdisciplinar e interinstitucional (com o campo do direito, educação e médico, por exemplo), na qual inclua o trabalho com a família, tal como se pode praticar hoje em vários de nossos dispositivos públicos, em espera de maiores formalizações.

Tradução: Lucia Mello (EBP/AMP)

BIBLIOGRAFIA

  • Brousse, M.H. (2020). Lo femenino. Tres Haches. Buenos Aires
  • Engels, F. (2007). El origen de la familia, de la propiedad privada y del Estado. Claridad. Buenos Aires
  • Lacan, J. (2012) "Los complejos familiares en la formación del individuo: Ensayo de análisis de una función en psicología" En Otros Escritos. Paidos. Buenos Aires
  • Laurent, E. (2006) Blog-note del síntoma. Tres Haches. Buenos Aires
  • Laurent, E. (2018). El niño y su familia. Diva. Buenos Aires
  • Roudinesco, E. (2013) La familia en desorden. Fondo de cultura económica. Buenos Aires Masotta, O. "Prólogo". En Lacan, J. (2002) La familia. Biblioteca de Filosofía. Madrid
  • VVAA. Freudiana 91- año 2021 "¿Querer un hijo? Deseo de familia y clínica de las filiaciones". RBA Libros. Cataluña. Zlotnik, M. (2016) El padre modelo: Un breve ensayo sobre los nombres del padre. Grama. Buenos Aires.

NOTAS

  1. Lacan, J. (2012) "Los complejos familiares en la formación del individuo: Ensayo de análisis de una función en psicología" En Otros Escritos. Paidos. Buenos Aires p. 37
  2. Ibid. p. 40
  3. Ibid
  4. Ibid. 46
  5. Ibid. p. 70
  6. Ibid. p. 95
  7. Ibid.
  8. Engels, F. (2007). El origen de la familia, de la propiedad privada y del Estado. Claridad. Buenos Aires. p 54.
  9. Ibid. p. 74
  10. Masotta, O. "Prólogo". En Lacan, J. (2002) La familia. Biblioteca de Filosofía. Madrid. p. 8
  11. Nos queda muchísimo por investigar. Destaco aquí, a modo bosquejo para un programa:
    • el objeto que pueden ser los/las/les hijos en el fantasma de padre o madre;
    • el padre como versión de goce y como modelo;
    • lo femenino que hay en la madre;
    • el padre como hombre y la madre como mujer;
    • el lugar de falo, con o sin su significación;
    • lo que pueda derivar del sintagma equívoco parents;
    • el padre como nombre y como síntoma;
    • las variaciones supeditas a las nuevas parentalidades, incluyendo tanto a las infancias judicializadas como a las legisladas;
    • las infancias trans y la función de sus familias;
    • etc